Dia 17, 8 de março. A beleza da biblioteca


Ao que parece, estaria previsto os entalhes da biblioteca do convento-palácio de Mafra receberem folha de ouro, na boa tradição nacional, mas a falta de fundos acabou por ditar que isso não avançasse. E os franciscanos, mais tarde, em conformidade com o seu voto de pobreza, pintaram a madeira de branco para acentuar a sua simplicidade. Com o tempo, esse branco foi-se transformando num subtil tom acinzentado (há quem lhe chame "pergaminho") que é pouco comum e de grande beleza.

O rico e elitista William Beckford desvalorizou a biblioteca de Mafra, considerando delegante o avanço da balaustrada do piso superior, que se projeta um pouco na nave. Quanto a mim, digam o que disserem, é uma belíssima biblioteca em qualquer parte do mundo.

Claro que hoje é uma espécie de arquivo morto, ostentando livros que contêm conhecimentos desatualizados - ainda assim com sumptuosas lombadas. Pode dizer-se, portanto, que os livros de Mafra têm uma função quase exclusivamente decorativa.

Mas essa função é indissociável de haver milhões e milhões de páginas escritas por detrás das lombadas. Mesmo que esse conhecimento seja hoje inútil... ou será que o facto de ser inútil lhe acrescenta ainda mais encanto?

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